✳ carta

A corda que atravessou

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O maior palco de dança do mundo está acontecendo aqui do meu lado, e não tinha forma melhor de conhecer a cultural local, eu que sou recem chegada em Joinville passei os dias dentro do festival de dança como quem reencontra uma coisa perdida. E o resultado foi de me lembrar de como a cultura reaparece na minha caminhada de formas que eu nem percebia, e que, quando eu paro pra olhar, já estavam ali desde sempre.

Estava na minha mãe, que trabalhava dentro do Teatro Guaíra e no CEP. Estava no meu pai, que era músico, professor e compôs a última canção antes de partir. E estava no esforço que eu fiz pra que as minhas filhas, desde pequenininhas, tivessem a vivência do museu toda a semana, em cada cidade que visitávamos, tendo visitado em poucos anos de vida mais museus que muitos brasileiros entram numa vida inteira . Um esforço que só agora eu consigo nomear, vendo os efeitos, do que antes parecia normal.

Hoje eu entendo, de verdade, o que é que estava por baixo de todo esse movimento. Estava a cultura.

Tem um conceito que eu amo, uma das doze temáticas da comunidade de Curadoria Online que eu tinha antes, a que mais me marcou. Eu construí ela junto com a Rafha, que fazia mestrado na Itália, na época e trouxe um caso que eu nunca mais esqueci: as referências da sua referência. Costumamos achar que o original nasce do nada, um talento que caiu do céu, mas não é bem assim né? Rafael, o pintor do Renascimento, foi aprendiz de Perugino e copiava o mestre. Depois se mudou pra Florença e absorveu Leonardo. Depois foi pra Roma, encontrou Michelangelo e as ruínas antigas, e só então virou o Rafael que a gente conhece. Cada camada dele veio de ter sido atravessado por outra coisa antes.

E é isso que explica uma coisa difícil de dizer em voz alta. O original não é quem inventou do zero. É quem foi mais exposto, quem acumulou mais repertório, quem se deixou imergir. Pra gente ser quem é, pra ter autonomia, pra ter as poucas certezas que andam cada vez mais distantes, pra se encontrar na própria essência, a cultura não é acessório. Ela é essencial. Ela é magnânima. Ela nos define, e vai definir cada decisão que a gente toma. E quando você percebe isso, descobre uma coisa esquisita e linda ao mesmo tempo: o caminho não é reto, e nem curvo. Ele é 3D, rs. Você não anda só pra frente, você anda pra dentro. Igual o Rafael: cada camada não te levava mais longe, te levava mais fundo.

Não é o curso que forma. É a imersão. Cultura não decora a vida, ela escreve quem a gente vira. E ambiente, ao contrário de talento, pode ser escolhido, oferecido, herdado de propósito.

A distração não é um bug. é o produto. O algoritmo na medida que dominava, foi trocando a ação por assistir, e a gente virou telespectador, servo de uma rolagem que nunca acaba. Agora chegou a fase mais crua, a da aposta, onde até a última migalha de agência virou apertar um botão e torcer. Cada rodada dessas mina um pouco da essência, devagar, por baixo. Num mundo líquido que não herda uma forma pronta, tem que se construir sozinha, e isso angustia. O repertório de uma vida: é o que restou de sólido, o que não dissolve no feed. por isso museu sim, feed não.

E essa conclusão não veio só de casa. Veio também do meu trabalho. Faz cinco anos que eu trago uma forma nova de olhar pra nossa biologia, de mexer na rotina, de tratar até a indulgência como uma coisa que transcende o momento e chega na energia e na alma. Mas aos poucos eu percebi que não era só isso. Eu vi, em evento atrás de evento, do mais fundo, as imersões de três dias, as vitórias impossíveis, gente vencendo medos que jurava não conseguir, até o menor workshop, até a feira, o quanto aquilo formava. E mais: foram mais de cinco palcos só nos últimos três meses. Mais informação do que uma faculdade inteira. E no fim tudo convergia pra mesma teoria: agência, autonomia, profundidade, autoralidade, originalidade.

Na última carta eu disse que a genética é o instrumento e o ambiente decide a música. E essa é a outra metade: a cultura é o dedo que aperta. É ela que faz uma corda que estava muda finalmente soar. Você pode nascer com a nota sem nunca ouvir ela, se nenhuma sala pediu aquele som.

Amanhã é o Dia Fora do Tempo, o dia que o calendário se recusa a contar em civilizações antigas que tanto me intrigam, e por acaso também o Dia do Escritor. E a cidade inteira está fazendo a mesma coisa: por sete dias, ninguém aqui está contando as horas, todo mundo está imerso.

O festival vai embora domingo. O violão do meu pai não. Ele segue encostado na parede, e de vez em quando as minhas filhas passam a mão nas cordas, sem querer, e ele solta um acorde torto, feio, vivo. Elas nunca o ouviram tocar. A corda estava dada. Agora ela soa.

Fica a pergunta, que agora é sua: qual corda você está fazendo soar em alguém, sem nem perceber?

*

Uma última coisa, do meu lado, não da tese. Tem um lugar onde eu levo tudo isso pra dentro da rotina o ano inteiro. Um grupo pequeno, mês a mês: o Círculo Íntimo. Um novo capítulo abre agora. Se quiser saber, é só me responder.

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