A casa não era o lab
(escrevi esta carta com as caixas de papelão ainda no corredor. segurei por dois meses, esperando a versão perfeita. o antidoto.lab começa como pretende continuar: publicando a imperfeita, do outro lado da mudança.)
Estou desmontando uma casa.
Não é metáfora. São caixas de papelão no corredor, o eco que um cômodo vazio devolve, a marca mais clara na parede onde um quadro ficou pendurado por anos. Mudança tem isso: ela te obriga a pegar cada coisa na mão e decidir se ela vem junto. E em algum momento entre a terceira e a quarta caixa, eu parei. Porque percebi que não estava embalando objetos. Estava embalando minha essência.
Antes de fechar a última porta, fiz uma coisa. Pedi, nos stories, que vocês me contassem do que lembravam desta casa. Não esperava muito. Recebi memórias que reorganizaram a forma como eu entendo os últimos anos.
As minhas filhas nas escadas. Os círculos de mulheres que aconteceram na sala. Os cursos terapeuticos. A primeira live que fiz como professora, montada aqui dentro. As vidas que mudaram nos eventos que recebi. A criatividade que nasceu no meio da pandemia, quando esta casa era o único mundo disponível.
Repara no que nenhuma delas é. Nenhuma é sobre a casa. Todas são sobre o que a casa permitiu acontecer. Ninguém me lembrou da planta, da metragem, da cor da parede. Me lembraram de pessoas, de começos, de transformações. A casa não era o assunto. Era a condição.
Essa casa nasceu para a fotografia. Foi por ela que escolhi cada parede, a luz de cada janela. E a fotografia acabou ali dentro, nos primeiros anos. Eu achei que a casa tinha perdido a função. Ela estava só começando. A Ahnima nasceu numa dessas mesas. As primeiras fórmulas, os primeiros círculos, a primeira vez que disse em voz alta que ia fazer chocolate que cuida do cérebro. Eu construí tudo isso achando que era eu construindo. Agora, com a casa quase vazia, entendo melhor: o ambiente estava me fazendo junto. Eu desenhei a casa para um caminho. Ela me devolveu caminhos que eu não sabia pedir.
Isso não é poesia. É biologia.
Passo meus dias estudando epigenética, a ciência de como o ambiente liga e desliga aquilo que os genes só oferecem como possibilidade. A genética te dá o instrumento. O ambiente decide que música vai tocar. E a gente fala disso o tempo todo aplicado a comida, a luz, a sono, a estresse. Quase nunca aplicado à coisa mais óbvia de todas: as paredes dentro das quais a vida inteira acontece.
Bauman dizia que a modernidade é líquida, que tudo o que era sólido se dissolve, que a gente perdeu os lugares que nos davam forma. A casa, agora que sai das minhas mãos, eu entendo que foi exatamente isso. Um sólido. Num tempo que escorre, ela segurou forma o suficiente pra que coisas pudessem criar raiz. Filhas, empresa, mulheres, ideias. Foi um antídoto. E o mais honesto que eu posso dizer é que tomei esse antídoto por anos sem saber que estava tomando.
É isso que o antidoto.lab vai ser. Um lugar onde eu penso em voz alta sobre as intervenções que a gente desenha, de propósito ou sem perceber, pra responder ao ambiente em que vive. Às vezes é uma molécula. Às vezes é uma rotina. Dessa vez foi uma casa.
Não vou levar a casa. Ninguém leva. O que eu descobri que dá pra levar é outra coisa: a escuta. A casa não foi o lab. O lab era escutar a casa. E escutar é a única coisa que cabe em qualquer endereço.
A próxima já está sendo ouvida.
Camila
ps. responde este email com a memória de um lugar que te fez. eu leio tudo.